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Gestão

Processos escritos: quando valem a pena e quando atrapalham

Um processo escrito é uma decisão tomada uma vez. Os sinais de que vale a pena escrever, os casos em que escrever só cria cerimónia, e porque é que um manual que ninguém lê tem sempre a mesma causa.

5 min de leitura

Ilustração isométrica de um documento de procedimento com passos assinalados, ligado a um quadro de trabalho onde as mesmas marcas aparecem nas tarefas correspondentes.

Há um manual de procedimentos em quase todas as empresas com mais de vinte pessoas. Foi escrito num verão, tem entre quarenta e cem páginas, vive numa pasta partilhada e a última alteração é de há dois anos. Ninguém o lê. E, quando alguém pergunta como se faz uma coisa, a resposta continua a ser «pergunta a quem sempre fez isso».

A reação habitual a isto é escrever outro, melhor. Vale mais perceber primeiro para que serve escrever um processo, porque a resposta é mais estreita do que parece: um processo escrito é uma decisão tomada uma vez, para não se voltar a tomar. Se a decisão tiver de ser tomada de novo em cada caso, escrevê-la não ajuda — atrapalha.

O que um processo escrito resolve mesmo

Vale a pena separar três ganhos, porque são diferentes e raramente se quer os três ao mesmo tempo.

  • Não repetir a decisão. Alguém já pensou se se pede adiantamento a cliente novo, e em que casos. Escrito, deixa de se discutir a cada proposta.
  • Não depender de uma pessoa. O que está na cabeça de quem faz há oito anos desaparece com duas semanas de férias — e desaparece de vez quando essa pessoa muda de emprego.
  • Dar a alguém autonomia para agir. É o ganho mais subestimado: um critério escrito é a única forma de alguém decidir sozinho sem se sentir a arriscar o pescoço.

Note-se o que não está na lista: uniformidade pela uniformidade, nem prova de que a empresa é organizada. São os dois motivos que produzem manuais grandes e inúteis, e reconhecem-se por um sinal — foram escritos para serem mostrados, não para serem seguidos.

Três sinais de que vale a pena escrever

O primeiro é o custo do erro. Tarefas raras com consequência grande são as que mais compensam escrever, mesmo que aconteçam duas vezes por ano: fechar um contrato com cláusulas fora do habitual, tratar de uma reclamação que pode acabar mal, dar baixa de um equipamento. Ninguém faz o suficiente para ter prática, e é exatamente por isso.

O segundo é a passagem entre pessoas. Onde o trabalho muda de mãos, há sempre uma expectativa não dita: quem entrega acha que já disse o que era preciso, quem recebe acha que lhe faltou metade. É a razão por que a passagem de um negócio ganho para um plano de trabalho é o sítio onde compensa mais escrever pouco e escrever bem.

O terceiro é a repetição com variação pequena. Se a mesma coisa se faz todas as semanas e quase sempre da mesma maneira, escrevê-la custa uma hora e devolve tempo todos os meses. Se a variação for grande, estamos no caso seguinte.

E os casos em que escrever só cria cerimónia

Um processo escrito substitui julgamento. Quando o julgamento é a parte que vale, substituí-lo é uma perda — e é o erro mais caro desta matéria, porque parece rigor.

Uma negociação difícil, a decisão de aceitar ou recusar um cliente, a forma de dar uma má notícia, a escolha de quem vai a uma reunião: nenhuma destas melhora com um passo a passo. O que ajuda aqui não é um processo, é um critério — uma frase que diz o que se está a proteger — e a diferença entre as duas coisas é que um critério orienta uma decisão nova e um processo prescreve uma decisão antiga.

Há mais dois casos em que escrever não compensa. O que vai mudar dentro de um mês, porque o texto nasce desatualizado e a desatualização ensina as pessoas a desconfiar do resto. E o que acontece uma única vez, que se resolve com uma conversa e não com um documento que fica a ocupar a pasta durante anos.

Um manual que ninguém lê tem sempre a mesma causa

Não é falta de disciplina de quem trabalha. É distância: o processo está num sítio e o trabalho está noutro. Ninguém abre uma pasta partilhada, procura um documento e percorre catorze páginas no meio de atender um cliente ao telefone. Ninguém faria.

O que funciona é o contrário — o processo estar onde o trabalho acontece. Um passo que tem de existir antes de avançar, uma etapa que não fecha sem o campo que alguém precisa a jusante, uma lista curta ao lado da tarefa. Quando é assim, o texto deixa de ter de ser lido: é cumprido por estar no caminho. É por isso que a pergunta «onde é que este processo vive?» decide mais do que a redação dele.

Há, no entanto, um limite que vale conhecer antes de transformar tudo em passos obrigatórios. Cada campo obrigatório é um travão, e um travão de mais faz a equipa procurar o caminho de fora — o registo mínimo para passar, e o trabalho real noutro sítio. É a mesma armadilha que faz implementações inteiras não pegarem: confundir o processo com a obrigação de o documentar.

Como escrever um que seja lido

Há uma forma de reduzir o risco a quase nada: escrever curto e escrever depois. Curto, porque um processo que não cabe numa página não é um processo — são vários mal separados. Depois, porque um processo escrito antes de a coisa ter sido feita algumas vezes é uma teoria, e as teorias não sobrevivem ao primeiro cliente.

Três perguntas antes de escrever qualquer um. Quem é que o vai ler, e em que momento do dia — a resposta define o tamanho. Que decisão é que ele poupa a essa pessoa. E quem o mantém quando mudar, com nome: um processo sem dono é um processo com data de validade escondida.

Comece pelo que já falhou duas vezes. Não pelo mais importante nem pelo primeiro da lista — pelo que já correu mal duas vezes pela mesma razão, porque esse tem uma dor associada e a equipa aceita a regra sem ser preciso convencê-la. Escreva-o numa página, ponha-o no caminho de quem faz o trabalho e reveja-o no mês seguinte. É este o exercício que vale a pena ter feito antes de olhar para os fluxos internos da camada de gestão de uma plataforma, e é o que evita que crescer se transforme em improvisar mais depressa.

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