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Gestão

Crescer de dez para cinquenta pessoas sem perder o controlo

O que se perde entre dez e cinquenta pessoas não é capacidade: é tudo o que antes se ouvia sem perguntar. Os pontos em que a coordenação informal deixa de chegar, e a ordem por que vale a pena arrumar.

5 min de leitura

Ilustração isométrica de uma estrutura de três blocos ligados que cresce, ao longo de plataformas sucessivas, até uma malha ordenada de muitos blocos, sempre com as ligações direitas.

Uma empresa de dez pessoas coordena-se sem sistema nenhum e funciona muito bem. Todos ouvem as conversas dos outros, quem tem uma dúvida levanta a cabeça e pergunta, e o dono sabe o nome de todos os clientes. Não há falha de gestão nisto — é a forma mais eficiente de coordenar dez pessoas, e qualquer processo que lhe fosse imposto seria peso morto.

O que ninguém avisa é que essa forma tem um limite, e que ela não avisa quando o atinge. Não há um dia em que deixa de funcionar: há uma degradação lenta, em que as coisas continuam a sair e passam a sair com mais esforço, mais retrabalho e mais reuniões. Aos cinquenta, o método dos dez já não existe — e o que o substituiu ninguém decidiu.

Não se perde capacidade; perde-se o que se ouvia sem perguntar

Vale a pena ser preciso sobre o que quebra, porque o diagnóstico errado leva a contratar mais gente para um problema que não é de gente. O que quebra é a informação que antes chegava de graça.

Com dez pessoas numa sala, sabe-se que um cliente está insatisfeito porque se ouviu o telefonema. Sabe-se que uma entrega vai atrasar porque se viu a cara de quem a está a fazer. Sabe-se que o comercial andou a prometer uma coisa difícil porque ele o disse em voz alta ao almoço. Nada disto estava registado em sítio nenhum e toda a gestão se fazia com isso.

Com cinquenta, e sobretudo com cinquenta em mais do que uma sala, esse caudal desaparece. A informação continua a existir — deixa de circular. E a resposta natural, que é perguntar, tem um custo que ninguém contabiliza: cada pergunta interrompe duas pessoas e a resposta é a memória de uma delas.

O primeiro sinal: alguém tem de ser perguntado

Há um sinal que aparece muito antes de haver problemas visíveis, e é fácil de reconhecer porque toda a empresa o conhece pelo nome. É a pessoa a quem se pergunta tudo. Sabe quanto se cobrou àquele cliente há três anos, porque é que se deixou de trabalhar com aquele fornecedor, onde está o contrato, quem tratou daquela reclamação.

Enquanto a empresa é pequena, essa pessoa é um ativo. À medida que cresce, passa a ser um estrangulamento — e o pior é que ela é a última a queixar-se, porque aquilo é reconhecimento e há quem goste de ser indispensável. Os custos aparecem noutro sítio: em decisões que ficam à espera dela, e em férias que se tornam impossíveis.

O teste é simples e desconfortável: escolha um cliente ao acaso e tente reconstruir tudo o que se combinou com ele nos últimos dois anos sem falar com ninguém. O que não conseguir reconstruir é o que está em cabeças, e é o que a empresa perde de cada vez que alguém sai.

A camada de chefias que aparece, e o que ela precisa para não ser um filtro

Entre os dez e os cinquenta cria-se inevitavelmente um nível intermédio: pessoas que coordenam outras e que antes eram apenas quem fazia o trabalho melhor. É uma passagem mal preparada em quase todos os casos, e o risco não é de competência — é de a camada nova se transformar num filtro.

Acontece assim: a direção deixa de ver a operação diretamente e passa a ouvir versões. Cada responsável resume a sua área, e um resumo é sempre uma escolha do que contar. Nada de desonesto nisto; é o que qualquer pessoa faz quando lhe pedem um ponto de situação em três minutos. Mas a direção perde a capacidade de ver um problema antes de alguém o decidir contar.

A única defesa que funciona é a direção e as chefias olharem para a mesma informação, saída do trabalho registado e não de resumos preparados para a reunião. É o que separa uma reunião de gestão com dados de uma ronda de relatos — e é também o que torna o trabalho de quem coordena mais fácil, porque deixa de ter de defender números que montou à mão.

Contratar não resolve um processo que não existe

Uma empresa que cresce contrata, e cada pessoa nova custa mais do que o seu salário nos primeiros meses: consome tempo de quem já lá está. Quanto? Depende inteiramente de uma coisa — se há algo escrito ou se tudo se aprende por observação.

Quem entra é o melhor auditor que a empresa vai ter, e a janela dura três semanas. Faz as perguntas que ninguém faz há anos: porque é que isto se faz assim, onde está aquilo, quem decide isto. Vale a pena escrever essas perguntas em vez de as responder e esquecer — são a lista exata do que não está escrito e devia estar. E convém notar que a resposta não é escrever tudo: é saber o que compensa escrever e o que não compensa.

A ordem por que vale a pena arrumar

Quem cresce tem a tentação de resolver isto tudo de uma vez, geralmente a seguir a um susto. É a forma mais rápida de não resolver nada, porque um projeto grande de organização interna compete com a operação e a operação ganha sempre. Há uma ordem que funciona melhor, e é por dor.

  • Primeiro, o histórico de cliente. É o que dói mais depressa e o que se perde para sempre: o que se combinou, com quem, quando, a que preço.
  • Depois, a passagem entre equipas. Onde o trabalho muda de mãos é onde o crescimento se sente primeiro, porque com dez pessoas a passagem era uma conversa.
  • Depois, quem vê o quê. Com cinquenta pessoas já não há alguém que conheça todos os casos de cor, e é aí que as permissões deixam de poder ser informais.
  • Por último, os indicadores. Contra a intuição: painéis montados sobre registos que ainda não são fiáveis dão uma confiança falsa, que é pior do que não ter nenhum.

O passo concreto para esta semana não é escolher software. É escrever, numa folha, as três perguntas que a direção fez nos últimos quinze dias e não conseguiu responder sozinha — e o nome da pessoa a quem teve de perguntar. Essa folha é o diagnóstico, e é dela que se percebe o que a camada de gestão tem de resolver primeiro. É também a conversa que vale a pena ter antes de qualquer proposta: o nosso modelo de trabalho começa por aí precisamente porque software instalado sobre coordenação informal não a substitui — repete-a.

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