Estratégia CRM
CRM, ERP e folha de cálculo: o que cada um resolve
Os três respondem a perguntas diferentes. Saber qual é a pergunta que a sua empresa não consegue responder hoje é o que diz qual deles falta.
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A discussão costuma começar mal, com a pergunta «de qual deles preciso?». Os três respondem a perguntas diferentes, e nenhum substitui bem o outro. A pergunta útil é a inversa: qual é a pergunta que a sua empresa hoje não consegue responder sem alguém compilar informação à mão?
Cada um responde a uma pergunta diferente
Simplificando sem distorcer: o ERP existe para responder ao que já aconteceu e quanto custou. Existências, compras, produção, contabilidade, vencimentos — factos consumados, com valor, que têm de fechar ao cêntimo e resistir a uma verificação.
O CRM existe para a parte em que ainda não aconteceu nada. Uma conversa, uma intenção, uma proposta em aberto, uma promessa, um seguimento marcado para daqui a três semanas. Nada disto é uma transação — e é por isso que não cabe num sistema desenhado para transações.
A folha de cálculo não responde a nenhuma das duas. Responde a «deixa-me pensar neste problema», e é insubstituível nisso.
A folha de cálculo não é o inimigo: é um esboço promovido a sistema
Vale a pena defendê-la, porque a crítica fácil faz perder o argumento verdadeiro. Para explorar uma ideia, testar um cenário ou fazer uma conta que ninguém vai repetir, não há ferramenta melhor: não exige configuração, aceita qualquer estrutura e está pronta em dois minutos.
O problema começa quando o esboço passa a ser o registo oficial da empresa. A partir daí faltam-lhe quatro coisas de que ninguém sente falta até ser tarde:
- Histórico de alterações. Quem mudou aquele valor, quando e porquê.
- Permissões. Quem precisa de ver a sua carteira vê a de todos, ou não vê nenhuma.
- Trabalho simultâneo. Sem ele nascem as versões paralelas, e depois as cópias com «final» no nome.
- Ligação ao resto. A folha sabe o que tem dentro e nada sobre o que se passou com aquele cliente ontem.
Quando duas pessoas precisam de escrever na mesma folha ao mesmo tempo, ela já deixou de ser a ferramenta certa. Não é uma falha do programa: é o sinal de que o problema mudou de categoria.
Porque é que um ERP não substitui um CRM
É uma confusão frequente em empresas que já investiram num ERP, e é compreensível: se o ERP tem a ficha do cliente e todo o histórico de faturação, para que serve outra coisa?
Serve porque a ficha de cliente do ERP existe para faturar. Tem o nome fiscal, a morada de entrega, as condições de pagamento — o necessário para emitir e cobrar. Não tem a razão pela qual aquele cliente hesitou em janeiro, nem o que ficou prometido na chamada de quinta-feira, nem quem é a pessoa que decide de facto, que muitas vezes não é quem assina.
Imagine uma empresa industrial com um ERP sólido: sabe exatamente o que vendeu a cada cliente nos últimos cinco anos e não consegue dizer com quem está a falar agora, sobre o quê e desde quando. O ERP tem a história de quem já comprou. O CRM tem a história de quem ainda está a decidir — e é essa que determina o próximo ano.
Há ainda uma diferença de ritmo que se nota no uso diário. O ERP é alimentado por quem tem de registar: é uma obrigação com prazo, e se ficar por fazer alguém dá por ela. O CRM é alimentado por quem ganharia em registar, o que é muito mais frágil — se der trabalho a mais, deixa de ser feito, e o sistema esvazia-se sem que nada avise. Por isso um CRM se avalia também pelo esforço que pede a quem o alimenta, e não só pelo que mostra a quem o consulta.
O inverso é igualmente verdade: um CRM não fecha contas nem substitui a gestão financeira. Os dois convivem sem problema. O que não pode existir é a mesma ficha de cliente em dois sistemas com duas verdades diferentes, porque a partir daí alguém passa a ter como função semanal decidir qual delas está certa.
Precisa dos três ao mesmo tempo?
Quase nunca, e querer tudo ao mesmo tempo é a maneira mais conhecida de não ter nada a funcionar. Volte à pergunta do início e repare onde é que ela dói.
Há também uma ordem que costuma funcionar melhor do que a inversa: resolver primeiro o lado onde as decisões se perdem e só depois o lado onde os registos se acumulam. Um erro de contabilidade descobre-se no fecho do mês e corrige-se; uma proposta que ninguém voltou a tocar durante seis semanas não deixa rasto nenhum e não se recupera. O que não está registado nunca gera alarme, e é por isso que costuma ser o que mais custa.
Se não sabe o que tem em existências nem quanto custou produzir, é do lado do ERP que falta estrutura. Se sabe faturar mas não sabe em que ponto está cada oportunidade nem o que ficou combinado com cada cliente, falta um CRM. E se as duas coisas estão resolvidas e o que falta é olhar para o conjunto, então o que falta são indicadores sobre dados que já existem — não um sistema novo.
Como decidir sem comprar o que não falta
Faça a prova pelo lado das perguntas e não pelo lado dos produtos. Escreva as cinco perguntas que a gerência faz com mais frequência e que hoje obrigam alguém a montar um ficheiro à mão. Ao lado de cada uma, escreva onde está hoje a resposta e quem a compila.
O padrão aparece depressa. Perguntas sobre dinheiro e existências apontam para o ERP. Perguntas sobre pessoas, promessas e estado do trabalho apontam para o CRM. E as perguntas cuja resposta vive numa folha de cálculo que alguém atualiza à mão são, por ordem de dor, a lista de trabalho por onde começar.
Se já reconheceu os sinais do lado da relação com o cliente, o passo seguinte não é pedir orçamentos: é pôr a operação na mesa e desenhar o que fica onde, incluindo o que continua bem numa folha de cálculo. O nosso modelo de trabalho começa por aí, com uma sessão de diagnóstico de quarenta e cinco minutos, porque esta decisão é de organização antes de ser de software — e a organização não vem configurada em nenhum produto.